Reportagem. A luta diária de uma zungueira

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Elisa Jepé, de 21 anos de idade, residente no município do Sambizanga e mãe de uma menina de um ano, vende pastéis à volta do Distrito Urbano da Ingombota há sensivelmente 6 meses para sustento próprio e da filha que carrega consigo às costas todos os dias.

Correndo contra o tempo, Elisa levanta-se de manhã cedo, geralmente antes das 5 horas, e caminha em direcção ao centro da cidade para juntar-se às muitas jovens mulheres e até mesmo idosas com quem  anda por Luanda, correndo riscos de vida, à procura de terem o que comer, o que nem sempre conseguem. “Às vezes o negócio não anda, ou é apreendido”, lamenta a jovem mulher natural de Benguela, que veio tentar a sorte na capital do país, e esforça-se ao máximo para em breve voltar à sua terra natal com alguma poupança.

Entretanto, ao contrário de Elisa, muitas outras jovens zungueiras são naturais de Luanda, porém, por desobediência aos pais, largaram a formação tão cedo e foram são expulsas de casa. Sem muitas alternativas, revelaram, optaram por vender nas ruas para terem auto-sustento a prostituir-se.

Como para iniciar um negócio é necessário dinheiro, algumas mulheres começam por arranjar empregos domésticos ou tornam-se ajudantes de outras, lavando louça ou fazendo limpeza nas barracas de confeição de comida nos principais mercados da capital, ou ainda são contratadas para vender na zunga negócio de outrem, como é o caso de Elisa, e com poupança desta actividade adquirem a sua própria mercadoria.

Apercebendo-se que o marido tem uma outra mulher, Elisa decidiu não ser totalmente dependente do mesmo, mas apercebeu-se logo a seguir das dificuldades. Várias vezes perseguida por fiscais, a vendedora perdeu o negócio e, em consequência, sofreu descontos no seu ordenado. “Das vezes que me levaram o negócio, a minha patroa descontou-me 6.000 kz e disse que sou eu quem deveria ter mais cuidado e estar mais atenta com os fiscais. Infelizmente eu só tenho é que aceitar, embora nem sempre o que consigo sirva para alguma coisa. É difícil suportar isso, mas não tenho outro emprego, os pais expulsaram-me de casa quando engravidei, e o marido nem sempre ajuda”, lamentou Elisa, que frequentava a 5.ª classe em Benguela ainda de se mudar para Luanda.

Viver da kissangwa e do café

Já Victorina Faustino, de 50 anos de idade, que vende kissangwa de milho no Largo Serpa Pinto há 3 anos, é mãe de 6 filhos, viu-se obrigada a lutar pela alimentação em casa e não, após a morte do esposo. “Eu tenho um filho de 22 anos que terminou o ensino médio no ano passado, mas por causa da falta de dinheiro, este ano está em casa. Eu sou mãe e pai ao mesmo tempo, o que não está a ser nada fácil”, admitiu. A bebida, feita com milho germinado, custa 100 kz o copo, preço alterado em detrimento da subida do preço do farelo, que está agora 200 kz o quilo, mais 150 kwanas que anteriormente.

“O açúcar agora também está muito caro, o negócio já não tem rendimento como antigamente, e ainda vêm os fiscais a incomodar a toda hora. Que parem só de nos dar corrida”, replicou, tendo acrescentado que, para tal, acorda todos os dias pelas 6h00 e às vezes nem 5.000 kz consegue levar para casa.

Contrariamente Angelina Isabel, por sua vez, afirmou que “apesar da chatice dos fiscais, ser vendedora ambulante em Luanda não deixa de ser algo bom, porque o negócio tem sido rentável. Angelina, de 21 anos de idade, que circula pelo município da Maianga, onde vende Café, a 100 kz por cada copo, negócio no qual está há um ano, “A caixa de café subiu de 5.000 a 8.000 kz, como efeito da crise financeira que o país vive, mas nada que me impeça de sustentar a família”, afirmou a jovem mulher que nunca frequentou a escola, mas luta para que o filhos tenham outras oportunidades. “Não quero o mesmo para o meu filho. Estou a lutar para dar-lhe uma vida melhor . O meu marido faz viagens e também não dá para depender muito dele”, declarou.

O ONgoma News tentou, por várias vezes, contactar os Serviços Fiscalização de Luanda mas não teve sucesso.  Entretanto, um agente da ordem pública abordado pela nossa equipa de reportagem admitiu que a Polícia tem feito mal o seu trabalho. “Nós já estamos a viver numa época de muitas dificuldades, portanto não faz sentido estarmos a agredir senhoras alheias. Tudo nós podemos fazer com base na conversa, mas por outro lado, o problema começa do topo. É o governo quem deveria ser mais organizado e criar maneiras de esses incidentes reduzirem. Já estamos em crise, não adianta mais estarmos em guerra”, concluiu.