Cláudio Silva: “Sempre acreditei que o turismo de Angola tinha tudo para dar certo”

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Cláudio Silva fundou, em 2013, o Luanda Nightlife, uma portal de avaliação e sugestões do sector da restauração, hotelaria e turismo. E desde 2014 que a sua empresa promove o Angola Restaurante Week, com o objectivo não só de promover o hábito de comer em restaurante, mas também de criar condições materiais para apoiar instituições de caridade. A última edição, por exemplo, angariou mais de quatro milhões de kwanzas em benefício do Lar Mamã Muxima, localizado na Praia do Bispo. Para o jovem gestor - apaixonado por Angola - o turismo nacional tem tudo para dar certo, mas é necessário que haja antes "uma aposta séria por parte de quem domina este dossier, no sentido de se tornar realmente o turismo num ganha-pão para o país. Temos que melhorar as infra-estruturas básicas para podemos concorrer com os nossos vizinhos", defende Cláudio Silva. 

Lembra-se de quando começou o projecto Luanda Nightlife (LNL)? Foi difícil?

Quando comecei o LNL, em 2013, andava muito atrás dos restaurantes, a distribuir panfletos, mandar email e não receber respostas. Foi muito bater pavimento, como se diz. E quando houvesse respostas, não eram muito motivadoras. Lembro-me que fui ao hotel famoso em Luanda, para falar do portal, e a pessoa com quem falei, depois de lhe apresentar as nossas propostas, olhou para mim e simples perguntou: “Mas você acha que o nosso hotel precisa de fazer publicidade? Nós temos uma taxa de ocupação de quase 100% e não precisamos de anunciar”. Hoje, este hotel tem artigos no LNL sobre os seus serviços e são nossos parceiros. As pessoas foram mudando de mentalidade, porque nós continuamos a trabalhar como sempre trabalhamos. Por outro lado, a conjuntura económica do país mudou e as pessoas ficaram mais humildes.

Para a si foi a crise que levou as pessoas a mudar de atitude?

Também, mas foi, de igual modo, uma mudança de mentalidade em relação à comunicação e à publicidade online. O LNL cresceu muito como marca e isso ajudou a criar alguma confiança junto dos anunciantes, mas primeiro junto dos leitores, que começaram a encarar-nos como uma fonte fidedigna de informação sobre a restauração, hotelaria e turismo interno. Essa confiança dos leitores ajudou-nos bastante para que fôssemos considerados relevantes pelos restaurantes. Contrariamente, no tempo das vacas gordas pareceria que o dinheiro caía do céu e as empresas não avaliavam os meios, nem consideravam necessário publicitar, mas até hoje as maiores cadeias de restaurantes publicitam para o seu publico alvo. É uma questão básica em economia e marketing.

Qual é a avaliação que faz do Angola Restaurant Week?

Não só foram vendidos muitos mais menus Restaurant Week do que esperávamos – foram vendidos 8.541, no total – como também, subsequentemente, angariamos o valor mais alto de doações desde que começámos com esta iniciativa...

Este foi o terceiro ano consecutivo. No primeiro, a resposta dos restaurantes do público foi muito positiva, mas só fizemos em Luanda. Na semana foram vendidos três mil menus e conseguimos angariar cerca de 3000 mil kwanzas para o Lar Okutiuka no Huambo. Decidimos tornar o evento anual, fizemos a segunda edição e expandimos a iniciativa para as cidades de Benguela, Lobito e Catumbela, mas foi muito trabalho para uma equipa tão pequena e algumas coisas não correram bem. Neste ano, decidimos diminuir o número de restaurantes, e trabalhámos apenas com os que mostraram que estão à altura e com vontade de participarem no Angola Restaurant Week. Entretanto, também investimos muito mais na comunicação da iniciativa. Em resumo, o Angola Restaurant Week 2016 foi muito além das nossas expectativas enquanto organizadores e enquanto consumidores dos restaurantes da cidade. O nosso best case scenario era a venda de 5.000 menus Restaurant Week, até porque devido a crise económica e estrutural que aflige a nossa economia, contávamos com menos poder de compra do consumidor final e menos vontade de gastar dinheiro em actividades de lazer. Estávamos redondamente enganados. Não só foram vendidos muitos mais menus Restaurant Week do que esperávamos – foram vendidos 8.541, no total – como também, subsequentemente, angariamos o valor mais alto de doações desde que começámos com esta iniciativa: 4.270.500,00 AKZ. Este valor, fruto da contribuição de 500 AKZ por cada Menu Restaurant Week vendido nos 29 restaurantes aderentes, já está a ser revertido ao Centro Social Santa Bárbara (também conhecido com Orfanato Mamã Muxima), localizado na Praia do Bispo. E segundo o inquérito que realizamos após o Restaurant Week, a maioria das pessoas aderiu à iniciativa precisamente por causa desta questão de solidariedade.

E como é que foi a experiência com os outros lares?

No primeiro ano que fizemos o Angola Restaurant Week apoiamos o Lar Okutuika, no Huambo, como já informei. Foram trezentos mil kwanzas, mas na altura ainda equivaliam a três mil dólares e a direcção do lar usou o dinheiro para tratar da saúde dos meninos. Nessa edição, apenas 100 kwanzas de cada menu vendido iam para o lar. No entanto, a partir do ano passado, quintuplicamos a quantia doada ao lar por cada menu Restaurant Week, neste caso passou para 500 kwanzas, e conseguimos angariar mais de 1.3000.000 AKZ para o Lar Santa Madalena no Cazenga. A direcção deste centro de acolhimento usou os fundos para construir um segundo andar, que vai ter quarto para as raparigas e para os rapazes, balneários e biblioteca. A estrutura já está erguida, mas a obra aguarda por conclusão, sendo que, neste intervalo de tempo, o kwanza continua a desvalorizar-se o preço dos materiais de construção a disparar. O dinheiro também foi utilizado para compra de medicamentos na pior altura do surto de febre amarela em Luanda.

De que forma o Luanda Nightlife ganha com o Angola Restaurant Week?

O Angola Restaurant Week é o nosso produto mais mediático que tem dado atenção e credibilidade ao LNL. Obviamente que a nossa principal actividade é escrever reviews sobre os restaurantes, mas a nossa estratégia para os próximos anos é sair mais da internet e fazer acções fora do online. O Angola Week Restaurant Week é a primeira destas iniciativas, mas não a única, sendo que no ano passado tivemos o Luanda Coffee Week, em parceira com a Delta Cafés, e em 2017 vamos continuar a fazer este tipo de iniciativas dentro do sector da restauração. Mais: o Angola Restaurant Week é muito importante para a visibilidade do LNL enquanto empresa jovem neste ramo de actividades, até porque os nossos leitores já nos cobram este tipo de acções.

Fale-nos também dos Prémios Angola Restaurant Week.

Os Prémios do Angola Restaurant Week foram feitos por votação pública, com a excepção do prémio "Melhor Restaurante do Angola Restaurant Week", que foi atribuído pela organização e teve como vencedor o Espaço Luanda. Como sócio-gerente do LNL, só tenho de agradecer a prestação dos restaurantes vencedores nas várias categorias – são eles o Kook pelo Melhor Prato, o Fazendeiro pelo Maior Número de Menus Restaurant Week Vendidos, a Taverna do Morro pelo melhor menu, a Taverna do Morro e o Kook pelo Melhor Atendimento, e novamente a Taverna do Morro pelo prémio "Melhor Experiência Restaurant Week" – e agradecer também ao público votante.

Aconteceu em Outubro passado o BITUR, por onde o Cláudio passou para visitar alguns expositores. Qual é ideia com que ficou?

Penso que a actividade não foi muito bem divulgada. No dia em que passei por lá, e foi um domingo e data de encerramento, estava vazia. Falei com os expositores e alguns deles mostraram-se desapontados com a adesão do público. Como passo a minha vida a pesquisar sobre restaurantes, hotéis e similares, apercebi-me na feira de dois projectos interessantes sobre os quais vou investigar. Sem ser isso, foi um pouco desolador.

“Os preços nos restaurantes eram astrónimos”

Qual é avaliação que faz sobre a relação preço-qualidade no ramo da hotelaria e restauração?

Há dez anos tínhamos uma péssima relação preço-qualidade. Os preços nos restaurantes eram astrónimos, a comida não era grande coisa e o cliente era mal atendido, como se estivesse a pedir algum favor. Entretanto, esta situação tem melhorado significativamente, mas ainda se ouvem algumas reclamações em que o cliente de facto tem razão, mas há também caso em que não tem razão. A relação preço-qualidade também melhorou, e penso que teve a ver com o aumento da concorrência no sector. Aliás, apesar da crise, continuam a abrir novos espaços, embora outros estejam a fechar, mas é a dinâmica do mercado. Quando fico algum tempo sem visitar determinada zona, quase sempre me surpreendo com o surgimento de novos espaços. Não estou a falar necessariamente de restaurante de topo, mas espaços com serviços intermédios.

Quando somos bem atendidos em Luanda ficamos contentes por é algo que não acontece sempre.

Conte-nos uma experiência que o tenha marcado enquanto cliente em restaurantes, ou enquanto provador do LNL.

Quando começou a empresa, quase todos os reviews eram feitos por mim. Ao longo do tempo fiquei mais conhecido - a empresa tem crescido - e já não posso ser eu a fazê-los, porque é suposto gestores dos restaurantes não se aperceberam da nossa presença. Ou seja, a nossa isenção ficou relativamente comprometida com a difusão da minha imagem. Entretanto, com o crescimento que tivemos, já podemos ter freelancer que crescem para o portal e sentem-se à vontade em escrever, sendo que continuamos a pagar pelas nossas refeições. Quanto às experiências, já tive algumas muito engraçadas. Escrevemos um review sobre uma discoteca da cidade de Luanda e os gestores não gostaram muito, sendo que se criou uma onde reacções nas redes sociais. Foi muito positivo pelo facto de ter havido muita gente envolvida num debate sobre o atendimento e o facto de um espaço impedir a entrada de clientes sem ter à porta a informação sobre a reserva ao direito de admissão. Depois, em reacção aos Prémios LNL, um restaurante na Ilha criou um cartaz com a informação de que tem o melhor atendimento, o melhor menu e outros serviços, mas infelizmente o LNL não passou por ela. Nós apercebemos disso, fizemos uma foto ao cartaz e divulgámos nas nossas redes sociais. Primeiro achei o cartaz engraçado, pelo facto de alguém se dar ao trabalho de fazer uma comunicação destas, mas também ficámos satisfeitos porque mostrou que já temos alguma importância neste sector.

Mas a qualidade de atendimento também se garante com formação, certo?

Sim. Sei que existem escolas de hotelaria e turismo no país, sendo que já escrevemos sobre o assunto, e apercebemo-nos de que existe um foco na formação dos empregados de mesa, e este esforço é também empreendido por alguns restaurantes com iniciativas próprias. Entretanto, de modo geral, esta continua a ser uma das nossas maiores lacunas, nomeadamente a falta de formação do pessoal da restauração, hotelaria e turismo. Quando somos bem atendidos em Luanda ficamos contentes por é algo que não acontece sempre.

Já é possível fazer-se turismo interno em Angola?

Sim. Falando de mim, dos meus amigos e familiares, já existe mais interesse em visitar o interior de Angola, até porque as divisas estão difíceis. Escrevemos recentemente um artigo sobre a possibilidade de “ir-se para fora cá dentro”, porque já é possível fazer turismo em regiões como Benguela, Kwanza Sul, Huíla e Namibe. Entretanto, tencionamos explorar outras atracções e províncias, como Malange, Huambo, e eventualmente chegar até ao Leste do país. Entretanto, é necessário que os operadores sejam mais divulgados e que eles promovam mais os seus serviços. Infelizmente ainda temos poucos meios que divulgam com regularidade este tipo de iniciativas, mas na medida do possível damos alguma força para que os promotores destas unidades hoteleiras continuem. Mesmo com as dificuldades de deslocação e o custo das passagens aéreas, ir ao interior ainda continua a ser mais atractivo do que ir ao Mártires do Kifangondo comprar dólares para viajar lá fora.

Quais são as suas opções de turismo interno?

Gosto muito de ir Benguela, Huíla e Namibe. Uma da minhas melhores experiências de turismo em Angola foi no Flamingo Lodge, no Namibe, propriamente no meio do Deserto e do nada. Dormimos ao barulho das ondas do mar. O céu fica cheio de estrelas e não existe qualquer tipo de iluminação pública artificial. Foi uma experiência inesquecível. Quanto a Benguela, as pessoas são muito acolhedoras e existem muito boas opções de restaurantes e hotéis. Por fim, na Huíla, a cidade do Lubango está muito bem organizada, as rotas turísticas bem definidas e consegue-se andar com facilidade de um ponto ao outro, além de haver possibilidade de fazer piquenique no cento da cidade, um hábito pouco comum entre as famílias angolanas.

Como é que o Cláudio enveredou para área do turismo?

A um ano de terminar a faculdade, apercebi-me que a minha maior paixão era mesmo a hotelaria e a restauração. Como gostava muito de escrever, foi muito automático. Além disso, sempre acreditei que o turismo de Angola tinha tudo para dar certo. Quando me mudei definitivamente para Angola, era ainda o tempo das vacas gordas, e pareceu-me uma oportunidade fantástica, como jovem, começar um projecto novo e inovador, sendo que tinha tudo para dar certo porque havia uma manifestação de aposta governamental no sector do turismo. As coisas não foram bem assim e hoje a realidade é completamente diferente, mas continuo a acreditar e a trabalhar porque o turismo nacional tem sim um potencial enorme. Entretanto, o país é lindo e tem recursos naturais, mas o seu potencial não é suficientemente divulgado.

Em que tipo de meios o turismo deve ser divulgado?

Primeiro é preciso arrumar a casa. É necessário que os angolanos se sintam bem aqui a viver para que possam convencer outras pessoas a cá virem. Sendo o turismo uma disciplina transversal, será difícil atrairmos turistas quando temos montanhas de lixo na cidade, epidemias de febre amarela e outra série de doenças que já não existem em outras partes do mundo. Também é impossível adquirir turistas quando temos muitas dificuldades na concessão de vistos. É necessário uma aposta séria por parte de quem domina este dossier, no sentido de se tornar realmente o turismo num ganha-pão para o país. Temos que melhorar as infra-estruturas básicas para podemos concorrer com os nossos vizinhos. Estando as condições criadas, podemos fazer campanhas internacionais nos principais meios de comunicação do mundo, nomeadamente cadeias de televisão, canais digitais e revistas de bordo, como fazem os países com tradição no turismo.

A música é uma das suas paixões... O que tem ouvido nos últimos dias?

Actualmente estou a ouvir uma banda americana chamada The Internet, estou também a explorar o CD do Drake “If You Read This Is Too Late”, o CD novo do Kanye West, “Pablo”, mas ao nível de artistas nacionais tenho para começar a ouvir o CD da Aline Frazão e do Nástio Mosquito.

Quando me mudei definitivamente para Angola, era ainda o tempo das vacas gordas, e pareceu-me uma oportunidade fantástica, como jovem, começar um projecto novo e inovador, sendo que tinha tudo para dar certo porque havia uma manifestação de aposta governamental no sector do turismo. As coisas não foram bem assim e hoje a realidade é completamente diferente, mas continuo a acreditar e a trabalhar porque o turismo nacional tem sim um potencial enorme.