“Os jornalistas devem ter certeza do que escrevem”, defende Maria Helena Miguel

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A Vice-Reitora da Universidade Católica de Angola defendeu ontem que os jornalistas devem ter mais certeza daquilo que escrevem e a saber se as palavras que usam nos textos são efectivamente adequadas para os devidos contextos frásicos.

“Muitas vezes os jornalistas não estão preparados para trabalharem numa notícia e usam palavras ou unidades lexicais que eles mesmos desconhecem, o que acaba por deturpar a mensagem que o texto veicula. Logo, é necessário que os editores, os responsáveis dos jornais tomem maior atenção a isso”, aconselhou Maria Helena Miguel, durante a palestra que decorreu sob o tema “Uso da língua portuguesa na imprensa”, no CEFOJOR, no âmbito da 10.ª edição da Feira Internacional do Livro e do Disco.

“A escola é a instituição com maior responsabilidade na formação da competência linguística dos alunos e das pessoas em geral. No entanto, as nossas escolas nunca estiveram em condições de fazer que os estudantes terminem o ensino secundário com a competência linguística desejada. Visto que todas as decisões sobre a situação da língua cabem ao Estado, deveria haver uma política linguística que fizesse com que os professores fossem mais preparados, quer a nível pedagógico, quer a nível do domínio da língua. A perspectiva do ensino da língua portuguesa está muito centrada na gramática, mas saber a gramática não é saber a língua”, observou a também docente de língua portuguesa.

Para a prelectora, a pronominalização no português de Luanda apresenta, com muita evidência, desvios em relação a norma europeia - padrão oficial do português de Angola, que ocorrem com frequência na colocação do pronome na frase, em pessoas de todos os níveis sociais.  "Dentre os usos do português em Luanda, sobressai o emprego dos pronomes pessoais, que se caracteriza pelo recurso a formas não reconhecidas pela norma padrão, como por exemplo o le/s", ressalvou.

Já Pedro Neto, jornalista da Rádio Nacional de Angola, que foi o moderador da palestra, a língua portuguesa é o instrumento de trabalho principal dos jornalistas, e compete a eles, não só defender a língua como também divulgá-la e bem. "No nosso jornalismo ainda têm-se notado muitas dificuldades no uso correcto da língua portuguesa, influenciando de forma errada quem lê, quem vê televisão ou ouve rádio", afirmou, tendo acrescentado que "o melhor jornalista não é aquele que usa palavras difíceis, mas quem usa termos que possam ser entendidos por todas as camadas da sociedade.

"O objectivo do jornalismo é justamente comunicar. Logo, não pode ser com palavras difíceis. Quando usamos um termo difícil, devemos saber explicar isso, de forma que quem nos lê, ouve ou lê, perceba o que está a ser transmitido”, argumentou.